Na Guiné Equatorial, papa faz apelo ao 'direito' e à 'justiça'
O papa Leão XIV exortou a Guiné Equatorial, nesta terça-feira (21), a colocar-se "a serviço do direito e da justiça", no primeiro dia de sua visita a este país autoritário da África central, um dos mais fechados do continente e frequentemente acusado de violações dos direitos humanos.
Após passar três dias em Angola, o pontífice americano chegou ao meio-dia a Malabo, antiga capital desta nação de língua espanhola, que será a quarta e última parada de sua maratona de 11 dias pela África.
Leão XIV foi recebido por Teodoro Obiang Nguema, de 83 anos, que está no poder desde 1979 e é atualmente o chefe de Estado não monárquico há mais tempo no cargo.
Em seu primeiro discurso, proferido no palácio presidencial, em um tom menos incisivo do que nas três paradas anteriores, ele exortou as autoridades do país a "reavaliarem" as "oportunidades positivas para se posicionarem no cenário internacional a serviço do direito e da justiça".
"Hoje, é ainda mais evidente do que há alguns anos que uma das principais razões para a proliferação de conflitos armados é a colonização de depósitos de petróleo e minerais, sem qualquer consideração pelo direito internacional ou pelo direito dos povos à autodeterminação", afirmou.
A produção de hidrocarbonetos representa 46,1% do PIB e mais de 90% das exportações do país, segundo o Banco Africano de Desenvolvimento em 2024.
De acordo com a Human Rights Watch, "as receitas do petróleo financiam estilos de vida luxuosos para a pequena elite que cerca o presidente, enquanto grande parte da população vive na pobreza".
O papa então se deslocou para a Universidade Nacional da Guiné Equatorial, onde discursou para representantes do mundo cultural, antes de visitar um hospital psiquiátrico.
Na quarta-feira, Leão XIV terá uma agenda cheia com três voos. Ele irá a Mongomo, cidade natal do presidente Obiang, e depois a Bata, a capital econômica, para uma missa em memória das vítimas da explosão que matou mais de 108 pessoas em um acampamento militar em 2021.
- Equilíbrio delicado -
Há 44 anos, o papa João Paulo II foi o primeiro pontífice a visitar Guiné Equatorial, um país rico em petróleo de dois milhões de habitantes, com 80% de católicos, herança da colonização espanhola.
Em Malabo, Leão XIV lamentou que "a brecha entre uma 'pequena minoria' — 1% da população — e a vasta maioria" tenha "aumentado drasticamente", à medida que o país se afunda em uma corrupção endêmica.
Diante dele estava, entre outros, Teodorín, filho do presidente e também vice-presidente, conhecido pelo estilo de vida luxuoso que ostenta nas redes sociais, em um país onde a maioria da população vive abaixo da linha da pobreza, e condenado pelos tribunais franceses em 2019 por lavagem de dinheiro e desvio de verba pública.
Desde o início de sua longa viagem, em 13 de abril, Leão XIV tem adotado um tom contundente, com apelos à justiça social, à luta contra a corrupção e ao respeito aos direitos humanos.
Na Guiné Equatorial, no entanto, ele deverá buscar um equilíbrio delicado: apoiar os fiéis, mas sem ser considerado um apoiador do regime, frequentemente acusado de autoritarismo e de violação dos direitos humanos.
A maioria dos opositores e dos meios de comunicação independentes está exilada na Espanha.
As organizações internacionais acusam as autoridades da Guiné Equatorial de corrupção endêmica e de repressão à oposição, com detenções arbitrárias e restrições às liberdades públicas.
- "Nossos sofrimentos" -
No grande mercado Semu, no centro de Malabo, as reações são diversas: alguns comerciantes esperam benefícios com a visita, enquanto outros expressam reservas.
"O papa vem por causa dos governantes do país. A visita dele não vai nos servir de nada, porque ele não virá convencer a classe governante a levar em consideração os nossos sofrimentos e as nossas reivindicações", lamentou Anita Oye, uma vendedora de tomates.
A maior parte da população vive na pobreza, apesar de o país ter uma das rendas per capita mais elevadas da África, graças em particular às receitas do petróleo. No ano passado, o índice de desemprego chegou a 8,3%, segundo o Banco Mundial.
No último dos 11 dias de sua viagem de 18.000 quilômetros na África, o papa celebrará, na quinta-feira, uma missa em um estádio de Malabo.
T.Gil--SG